Café Kafka, Barcelona

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Se Barcelona já tinha razões mais do que suficientes para lá irmos, este Café Kafka passa a ser, apenas, mais uma. Além de ser uma homenagem ao escritor Franz Kafka é daqueles espaços com um ambiente boémio, mas ao mesmo tempo acolhedor, onde apetece ficar largas horas… A forma desordenada, dentro da ordem, que os candeeiros se distribuem acho absolutamente genial. E isto não apenas por fazer parte do grupo um Sputnik dos anos 50. Aqui tudo conta e aqui tudo faz sentido… ‘Los Tartar’ de carne …

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Flaubert e a estupidez humana



Tudo o que ameaçava o homem das cavernas, perigos, trevas, fome, sede, fantasmas, demónios, tudo passou para o interior das nossas almas, tudo nos inquieta, nos angustia, nos ameaça por dentro.
E. Morin, sociólogo e filósofo francês.

Do que se constitui o tecido do gênio? Qual é o detalhe que faz com que se diferencie de nós, meros mortais medíocres? Uma das coisas que caracterizam um gênio talvez seja a sua capacidade de prever tendências, comportamentos e traduzi-los para sua arte.

Em Bouvard e Pécuchet, uma das mais impiedosas análises da estupidez humana, é fácil perceber muito do homem do século XXI. A dupla de idiotas adoráveis, visionários ignorantes, tão encantadores quanto irritantes, passa todo o livro trocando de manias. Jardinagem, agricultura, química, medicina, educação, misticismo, química, arqueologia, literatura, religião. Nunca chegam até o fim dos assuntos; chafurdam na superfície até enjoar e partir para a próxima diversão. No caso de Bouvard e Pécuchet a referência é ao fulgor cientificista do século XIX. No caso das pessoas hoje, um pós-modernismo comportamental que resulta em uma personalidade plural, cada vez menos concentrada em uma única coisa, uma colcha de retalhos que não permite rótulos.

Se por um lado temos mais liberdade, por outro sofremos com o excesso de frivolidade, em muitos casos.

Somos mais generalistas do que especialistas. O que é uma pena.

Há cento e trinta anos Flaubert já constatara que os grandes homens se tornariam inúteis e raros, substituídos por uma multidão que sabe tudo e, ao mesmo tempo, não sabe nada.

[via Gymnopedies]

 

O meu cérebro diz que sente saudades de inventar jogadas de xadrez com teu, sincopado por batimentos cardíacos na primeira pessoa. Anda para casa! *

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eternidade aquática


O verbo prorrogar entrou em pleno vigor, e não só se prorrogaram os mandatos como o vencimento de dívidas e dos compromissos de toda sorte. Tudo passou a existir além do tempo estabelecido. Em consequência não havia mais tempo.

Então suprimiram-se os relógios, as agendas e os calendários. Foi eliminado o ensino de História para que História? Se tudo era a mesma coisa, sem perspectiva de mudança.

A duração normal da vida também foi prorrogada e, porque a morte deixasse de existir, proclamou-se que tudo entrava no regime de eternidade. Aí começou a chover, e a eternidade se mostrou encharcada e lúgubre. E o seria para sempre, mas não foi. Um mecânico que se entediava em demasia com a eternidade aquática inventou um dispositivo para não se molhar. Causou a maior admiração e começou a receber inúmeras encomendas. A chuva foi neutralizada e, por falta de objetivo, cessou. Todas as formas de duração infinita foram cessando igualmente.

Certa manhã, tornou-se irrefutável que a vida voltara ao signo do provisório e do contingente. Eram observados outra vez prazos, limites. Tudo refloresceu. O filósofo concluiu que não se deve plagiar a eternidade.

Carlos Drummond de Andrade, in “Contos Plausíveis

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uma folha


É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.

Pablo Neruda

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